CUC – Contemporary Urban Culture

Interdisciplinary Platform for Urban Culture

A paisagem e o resto

Esta semana fui convidado a participar num encontro do Projecto Farol, um Think Tank promovido pela Deloitte que aparece como mais uma iniciativa da “sociedade civil” destinada a abordar a competitividade futura de Portugal…

O meu modesto contributo para esta sessão sobre Cultura baseou-se em dois alertas ou inquietações.

Primeiro, quando procuramos modelos “lá fora” para definirmos onde queremos estar daqui a 15 anos, tendemos a esquecer que “lá fora” também se planeia onde se deseja estar daqui a 15 anos, normalmente com a vantagem de se partir com maior avanço e mais tradição estratégica. Deste modo, se não partirmos para o futuro a duas velocidades – reflectindo a metáfora médica de Delfim Sardo sobre a simultaneidade dos “cuidados primários” e aquilo que eu chamaria, mais bem, os “cuidados intensivos” – nunca “apanharemos” as lebres…

Segundo, se queremos estar a produzir cultura relevante e competitiva daqui a 15 anos temos não só que promover formas culturais emergentes – algo singularmente difícil num país indubitavelmente conservador – mas temos também que tornar mais atractiva a paisagem cultural portuguesa…

E, especialmente, temos que tornar o panorama atractivo para os seus potenciais agentes e para aqueles que já foram enredados no proliferante ensino superior das áreas do Design (actualmente mais de 40 cursos) e da Arquitectura (hoje com cerca de 35 cursos) no nosso país.

O nosso “problema,” justamente, é que, pelo meio de muito “choque tecnológico”, esta mole de gente não encontra aqui oportunidades para a pesquisa, a investigação, e exploração de novas linguagens e possibilidades e, assim, enceta uma nóvel forma de emigração qualificada que despojará Portugal do seu capital humano de forma mais radical do que aquela que imaginamos.

Como avisava Luís Campos e Cunha na mesma sessão, não podemos “obrigar” estes “emigrantes” a regressar e, assim, corremos o risco de perder a margem de esperança que as estatísticas nos oferecem para o futuro – nomeadamente pelo crescimento humano do sector criativo em Portugal -, particularmente quando queremos reconhecer e incentivar as contribuições da Cultura e da criatividade para o PIB e outros indicadores que tal.

Curiosamente, esta perda de capital humano encontrava eco naquele que foi o contributo mais original da reunião, o do paisagista americano de Harvard, Carl Steinitz.

Conquanto Steinitz estivesse ali para vender o seu peixe – ou melhor, e como defenderei noutros contextos, estivesse ali, e bem, a vender o seu modelo de cana de pesca – a sua análise sem papas na língua do desfeamento da paisagem como factor de perda de atractividade e competitividade devia, de facto, alertar os portugueses. Como, pelos vistos, já começou a inquietar os espanhóis da Generalitat de Valência para os quais Steinitz realizou os seus estudos.

Steinitz, no fundo, propõe uma análise da apreciação da paisagem baseada num censo alargado e depois avança medidas estratégicas, protectivas ou de redesenho, para os “cuidados intensivos” que essa paisagem pode requerer.

A metodologia de abordagem proposta por Steinitz lembrou-me um estudo interdisciplinar ainda inédito que a CUC realizou para a Bienal da Maia de 1999 a convite de António Cerveira Pinto, propondo nessa ocasião uma mui Antoninana “Identificação de uma Cidade.”

Porque é que esse estudo de há uma década permaneceu inédito? Porque a Câmara da Maia preferiu pagar para impedir a sua publicação – já que as propostas então apresentadas, com base num estudo abrangente da “imagem da cidade”,  iam contra as políticas urbanas então em implementação…

Talvez entretanto o meio tenha amadurecido e o élan de Steinitz seja suficiente para que, hoje, estas mesmas análises da paisagem cultural e urbana sejam bem acolhidas e pagas por algum organismo estatal. Mas, entretanto, passaram-se 10 anos sobre o desejo de preparar o futuro.

É por estas e por outras, de resto, que a paisagem da produção cultural em Portugal se torna inóspita e que os que querem contribuir para o futuro preferem emigrar…

1 Comentário»

  A Fictional Country? « shrapnel contemporary wrote @

[…] recipe of someone like the smart –but ultimately traditionalist– Harvard landscape designer Carl Steinitz, we should put ourselves in the eyes of our visitors and revaluate the scrumptious exoticism of our […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: